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Escolha suas armas

O monstro apareceu no lugar mais indesejável possível: o armário de comida. Muni-me de um spray de veneno e também de uma vassoura, caso fosse necessário recorrer a métodos mais tradicionais, e fui enfrentar a intrusa cascuda. Minha mãe a tinha encontrado primeiro, e, quando abri novamente a porta do armário, não vi sinal do temido inseto. Comecei a tirar os pacotes e potes, um por um, removendo as barricadas com cuidado para não denunciar minha presença e afastar o inimigo antes de conseguir atingi-lo.


Finalmente, ao retirar um pacote aberto de macarrão, avistei a vilã ao lado de uma caixa de Maizena, movendo as anteninhas ameaçadoramente. Preparei a mira e a atingi com um jato de inseticida, que sustentei por quinze segundos. Inteiramente branco, coberto da substância mortal, o monstro ainda conseguiu sair correndo, as pernas bambas, e mirei o jato outra vez, atingindo por imperícia um inocente saco de açúcar. Tranquilizei minha mãe, porém, assegurando-a de que tinha atingido o inimigo com veneno o suficiente, e que logo ele ficaria sem forças e sucumbiria, as seis pernas apontando o céu para o qual ele certamente não iria. Prometi a remoção do cadáver para o dia seguinte.


Guardei, satisfeita, minha arma principal e também a secundária, feliz de não ter precisado dela. A remoção do cadáver seria uma atividade bem mais asquerosa caso eu tivesse usado o método mecânico, em vez do químico. Lavei as mãos como quem lava o sangue e suor do fim de uma batalha.


Não me considero uma pessoa corajosa. Muito pelo contrário, tenho medo de uma lista enorme de coisas, incluindo insetos transmissores de doenças. Talvez, quando bem pequena, eu tenha acalentado a ideia de me tornar uma adulta forte e corajosa, que ri na cara do medo. Não me lembro, mas sei que muitas crianças sonham com isso. Bem cedo, porém, eu desisti da ideia de vencer o medo. Descobri que era muito mais útil, prático e possível aprender a conviver com ele. Sendo mulher, viver com medo é inclusive sinal de prudência, infelizmente.


Quando me perguntam como tive coragem para fazer algo, geralmente eu levanto os ombros e dou meu famoso meio sorriso, porque sou pessoa de poucas palavras. Na minha cabeça, respondo que não tive coragem, fiz com medo mesmo. O medo paralisante é uma exceção, não a regra. A maior parte dos medos é apenas um peso pequeno amarrado nas pernas: torna mais difícil avançar, mas não impossível.


Sou medrosa, sim, e enfrento baratas e as venço. Assim como enfrentei muitas outras coisas, mais perigosas que baratas, morrendo de medo, e venci. Medrosos, não se deixem derrotar: tirem o pacote de macarrão da frente e verão que seu medo não é páreo para o seu jato de coragem.



 
 
 

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